(publicado no jornal Entrevista / edição 3 - Unisantos)
Sandálias de pneu reciclado, camisetas de fibra de bambu ou garrafa pet, bermudas de lona de caminhão. Esses não são os itens de uma loja artesanal de um ex-hippie tentando sobreviver na selva de pedra, mas sim produtos lançados por lojas de grife, como Nike Organics, Armani, Levi’s, entre outras. E não são para qualquer um. As peças costumam custar até R$200.
Antes comercializadas com como artesanato, as roupas ‘verdes’ pegam carona na onda ambientalista e chegam às lojas mais elitizadas. A proposta é dar oportunidade aos clientes de ficarem por dentro da moda, enquanto contribuem comprando produtos que preservam o meio ambiente. Aparentemente, isso é positivo. Mas, o preço da consciência ecológica é alto. Basta olhar as etiquetas.
O mercado fashion descobriu o nicho dos produtos verdes e, além de reforçar o marketing institucional das empresas, associando grifes a ações politicamente corretas, trabalha com produtos que estão conquistando o consumidor, mais especificamente, os que estão dispostos a pagar mais. Alguns materiais chegam a custar 30% mais caro que os tradicionais.
O termo ‘mais caro’ combina com as lojas de classe alta, como as da marca Osklen, do estilista carioca Oskar Metsavaht, que foi um dos primeiros a trazer para o Brasil camisas com algodão orgânico (sementes geneticamente não modificadas e cultivadas sem uso de agrotóxicos e fertilizantes artificiais).
Quem imagina que as roupas feitas com materiais alternativos são estranhas está muito enganado. Uma das bandeiras levantadas pela moda da sustentabilidade é a beleza e leveza dos tecidos, que dão um caimento muito elegante ao corpo. Há ainda diferenciais de qualidade, como funções desodorizantes e antibacterianas, no caso de camisetas feitas de fibra de bambu.
Apesar de tantos aspectos positivos- com exceção do preço- não é a mensagem de ‘amiga da natureza’ que tem sido procurada pela maioria dos consumidores de lojas de grife.
Segundo Monique de Carvalho, vendedora da loja Levi’s, do shopping Miramar, em Santos, Monique de Carvalho, os clientes apenas procuram pela marca famosa. “Muitas vezes só chegam a saber da natureza ecológica no balcão, informados pelo vendedor”. Ou seja, muitas vezes os produtos verdes não são comprados pelo bem do meio ambiente, mas sim porque estão dentro dos padrões da moda em vigor no momento.
Em quatro lojas visitadas pela reportagem do ENTREVISTA, todos os vendedores afirmaram que não é seu diferencial ecologicamente correto que chama mais a atenção do público. Alguns deles descobrem os benefícios e, em seguida, exaltam suas vantagens para a pele, sem preocupação com a questão ambiental. “Acaba virando apenas uma curiosidade”, conta Monique.
Em quatro lojas visitadas pela reportagem do ENTREVISTA, todos os vendedores afirmaram que não é seu diferencial ecologicamente correto que chama mais a atenção do público. Alguns deles descobrem os benefícios e, em seguida, exaltam suas vantagens para a pele, sem preocupação com a questão ambiental. “Acaba virando apenas uma curiosidade”, conta Monique.
Útil e
agradável
Mas há quem realmente dê preferência a produtos que não agridem o meio ambiente. E se é possível comprá-los de uma grife, por que não? Esse é o caso do administrador Bruno da Silva Nery, que considera importante, mesmo que de maneira marqueteira, o mercado se voltar para a preservação da natureza. “É sempre bom frisar a preocupação com o meio ambiente. Encontrar essas roupas no mercado é unir o útil ao agradável. E também acaba atraindo compradores de grande porte que possam injetar grana pela causa”, afirma.
Nery lembra que há linhas que servem também como peças de incentivo a projetos sociais, como algumas camisas da E-Brigade, da Oslken, que divulgam importantes ações como o Protocolo de Kyoto, Agenda 21, Carta da Terra, etc. Mas desfilar com uma camisa feita com garrafas pet recicladas, com a estampa da Convenção da Biodiversidade, custa aproximadamente R$120. Quem quiser completar o look com uma bermuda de lona de caminhão, gastará mais R$150.
A moda, portanto, não é para todos. Mesmo com a entrada de grandes redes varejistas no mercado ecológico, como a americana Wal-Mart , ainda não é tão simples fabricar roupas, sapatos e acessórios com material alternativo.
A analista de marketing da marca gaúcha Budha Khe Rhi, Luisa Ribeiro, que trabalha com camisas de algodão 100% orgânico, explica que a produção destas peças é terceirizada e que há uma exigência por parte da marca para que a matéria-prima seja plantada sem o uso de agrotóxicos e fertilizantes artificiais.
Isso pode ser bom à primeira vista, mas o algodão orgânico não é o forte da produção no Brasil. Os especialistas desse segmento afirmam que, se outras redes varejistas resolverem aderir à moda, pode faltar matéria prima no mercado.